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Entrevista com Guega Cervone publicado na Cemporcentoskate. Na íntegra

Publicado Em: 26/12/2013 16:07


Guega Cervone (André Calvão)

Guega Cervone (André Calvão)

Para a edição 182 da revista 100%Skate colaborei entrevistando o Guega Menezes, um skatista de Cubatão, na baixada santista. Na revista ela foi publicada com fotos e mais uma entrevista do André Calvão. No site, estão as duas entrevistas na íntegra.

Republico a minha aqui.

A Plata foi seu primeiro patrocinador?
Foi. Na real, a Plata começou bem pequena. Era uma marca do (Fabiano) Lokinho. Ele começou a marca, e eu andava na (Praça) Palmares. Eu sempre encontrava ele, ficava conversando, aí um dia ele me deu uns shapes. Começou com um apoio. Aí, rolou a venda pro Chorão.

Você curtiu essa época?
Eu era bem imaturo, tinha 16 anos, tinha visto poucos skatistas profissionais na minha frente, nunca tinha ido viajar. De repente surgiu de estar numa marca grande, com anúncios em revistas, viagens, apresentações no palco do show do Charlie Brown Jr. Ficava até deslumbrado.

Mas, você não acha que hoje, qualquer skatista profissional experiente, nessa situação também ficaria deslumbrado? Estar no palco de uma das maiores bandas do Brasil.
Era foda. Porque você ia no palco, tinha uma hora que o Chorão parava o show e apresentava os skatistas. Aí tombava uma geladeira da Red Bull e lançava as manobras. Andava lá no quarter, olhava de cima do palco umas dez mil pessoas te assistindo. Uma parada cabreira mesmo. Realmente, se você tiver cabeça fraca, deslumbra.

Era muito glamour?
Glamour não. Até então, eu nem entendia, pra ser sincero. Eu achava da hora a banda, o Chorão era sangue-bom, tinha comida e bebida a vontade, ficava em hotel bom, as minas pagando pau. Era meio mainstream a parada. Eu fazia parte daquilo por uma noite, depois não era mais nada.

Essas participações do skate nos shows do Charlie Brown ajudaram a popularizar o skate no Brasil?
Eu acredito que sim. Por mais que o Chorão tivesse o gênio que ele tinha, a personalidade forte, o cara levantou muito a bandeira do skate. Ele sempre ia na televisão, levava o skate, falava de skate. O cara tinha uma pista de skate, vivia o skate. As marcas dele não foram bem gerenciadas, mas o cara era skatista total, não tem o que falar, sem palavras.

Como era seu relacionamento com ele?
Era um cara de boa. Colava, trocava ideia, perguntava o que estava fazendo, andava junto. Principalmente na pista dele, porque quando rolou o lance da Plata, eu tinha passe livre na pista. Então eu andava todos os dias. Era uma pista nova e eu ficava super empolgado de andar lá. Foi uma época da hora, divertida.

E você imaginava que aquilo seria para sempre?
No primeiro rolê que teve, quando saíram os produtos da marca, o Chorão alugou uma van e levou a gente para a inauguração de uma loja em Jundiaí. Nessa inauguração, a loja ficou fechada pra gente. Aí ele começou a contar a história da vida dele e disse que ia dar suporte pra gente. Que nós teríamos o que ele não teve como skatista. E todo mundo curtiu. Aí na volta, ele levou a gente no Bahamas. Colocou todo mundo pra dentro, deu 100 dólares pra cada um e disse, “divirtam-se”. Foi engraçado, cada um pegou uma mulher grande e levou pro quarto. E nessa época eu botava uma fé que ia ser pra sempre. Pô, o cara tá aí botando fé, acreditando, vai rolar mesmo. Só que com o passar do tempo fui vendo que não era bem por aí. Quem administrava as marcas não era ele. Ele só investia dinheiro. Quem administrava era a irmã dele, que não estava nisso pelo skate, só visava o lucro da empresa.

Nessa noite do Bahamas tem a lenda de um cara que não fez nada porque preferiu guardar o dinheiro. Confere?
Rolou um bagulho assim. O (Rodrigo) Maizena namorava na época e ficou de boa. Aí o Chorão intimou o Maizena. Mas ele explicou que tinha namorada e não ia fazer nada. E pela lealdade, o Chorão deu a grana pro Maizena guardar.

Mas, 100 dólares no Bahamas não é pouco?
Na época era como se fosse uns 250 reais atuais. Só que a gente estava com o Chorão. As minas queriam te dar. Fazia um mês que eu tinha feito 18 anos.

Quando eu te conheci você era um moleque muito ‘casa-nova’.
Eu era bem ingênuo. É o que eu te falei, eu não tinha noção nenhuma. Não tive apoio de loja ou alguma coisa antes. Simplesmente caí dentro de uma marca. E se você não tiver estrutura, alguém pra cuidar de você… na real, o Lokinho me ajudava, mas até então ele deixava eu me virar sozinho, pra aprender da minha forma. Meu jeito de pensar, de agir. Não adiantava eu pensar como ele.

O Lokinho tem uma importância grande na sua formação como skatista e pessoa.
Com certeza. Na época ele morava em Santos, a gente andava de skate bastante. Ele pilhava pra andar na rua. Porque até então eu nem andava na rua. Aí ele falava que andar na rua era legal, pilhando, me testando. Foi uma fase muito boa. Ele comprou equipamento pra tirar fotos.

Você foi cobaia dele pra ele se tornar esse grande fotógrafo. Ou melhor, ele é artista agora.
Imagina, você vai sair pra andar com o cara que você gosta pra caramba. É um puta skatista, é um puta amigo. O cara tá com uma câmera e diz, “vamos fazer umas fotos?” Foi rolando, ele foi tomando gosto. Ele é um cara muito esforçado, muito dedicado. O que ele quer, ele vai fundo, não é a toa que isso tá rolando pra ele.

Você já foi para vários países que nem se fala inglês, de difícil comunicação.
Nos últimos três anos rolou de ir pra Europa. A Emerica Brasil me dava suporte com as viagens internacionais. Na primeira vez que eu fui foi na época que estava gravando pro Beats, eu tinha pouca coisa e como eu conhecia uns amigos na Noruega fui pra lá filmar. Fui com os amigos André Calvão e Filipe Flow. Foi interessante, mas ao mesmo tempo ficava preso. Porque é legal ir com os amigos, mas fica preso à ciclos. Mas fiz bastante amigos, lá na Escandinávia muita gente fala inglês perfeito.

Agora você vai sozinho de boa.
É, eu prefiro ir sozinho. Ano passado que foi a primeira vez que viajei pro exterior sozinho. E eu já tinha bastante contatos das viagens anteriores. E quando você viaja sozinho você fica mais aberto pra fazer novas amizades, conhecer outros lugares. Não fica com o rabo preso. Se você tem o dinheiro no bolso pra ir pra Berlim, vai. Se você está com outro amigo, o cara pode não querer ir. Pra mim, agrega muito mais viajar sozinho. Sem contar que sempre esbarra brasileiros em todos os lugares.

Nessas viagens o que você costuma fazer, só anda de skate?
O intuito principal é andar de skate. Sempre gravar, trazer material, produzir vídeos. Mas rola de acabar saindo pra balada. E acaba o dinheiro, faço um bico. De fome não morre.

Já trabalhou na sua vida?
Eu só fiz estágio. Porque quando fiz a faculdade precisava ter uma carga horária de 300 horas de estágio. Eu trabalhei uns quatro meses e antes eu tinha trabalhado um mês numa skateshop. Porque eu tinha pego um skate irado e não consegui o dinheiro pra consegui pagar. Aí tive que trabalhar um mês pra conseguir pagar o skate.

Qual faculdade você fez?
Administração.

E dava pra conciliar na boa, estudar e andar de skate?
Eu tinha 17 anos e nunca repeti de ano. Eu recebia pensão do meu pai, porque meus pais são separados. E se eu não fizesse faculdade, ele cortaria a pensão, por eu não estar estudando. Aí eu pensei, “vou pegar esses quatro anos que tenho pela frente, enquanto ele puder pagar a faculdade, vou andar de skate também”. Era tranquilo. Eu ia pra faculdade de manhã e a tarde e de noite andava de skate. Só era complicado viagens. Não dava pra viajar, mas como eu também não viajava, era tranquilo. Deu pra conciliar tranquilo, pra mim foi bem fácil.

O que te motivou a escolher administração?
Sinceramente, foi um lance meio bizarro. Porque eu queria fazer economia. Só que eu fiz vestibular na faculdade perto de casa, que tinha um preço razoavelmente bom. Só que não abriu sala. E nisso eu estava viajando, minha mãe me ligou e falou que eu ia perder a matrícula. Então administração foi minha segunda opção. Porque, querendo ou não, pelo menos pra mim, eu sempre imaginei, trabalhar no meio do skate, viver isso, não só andar e já era. Eu quero trabalhar com isso. Quero fazer o skate crescer, não só ver o skate nas mãos de gente errada. Precisa estar com gente de verdade. E era uma faculdade que dava pra eu agregar com o skate. Foi o pensamento que eu tive na hora. Mas com 17 anos é uma idade muito imatura pra escolher sua profissão. Se fosse hoje em dia eu não teria feito administração.

Então porque você queria fazer economia?
Eu fiz um teste vocacional e deu economia. Aí eu falei, “vou fazer isso aí!”

Hoje você acha que teria curtido ter esse diploma de economia?
Acho que seria pior que ter feito administração, porque você fica numa área muito restrita.

Então quer dizer que esse teste vocacional não serve pra nada?
Pra mim, pelo menos, não serviu. Pode ser que no futuro possa fazer sentido. Nesse momento atual, imagino que pelos próximos anos, ele foi furado. Porque eu tenho facilidade com números, matemática. Eu sempre tirei notas boas em física, matemática, tudo que é fórmula eu decoro bem.

Então você devia ser engenheiro ou arquiteto pra fazer umas skate plazas.
Quem sabe no futuro? A gente não sabe o que vem pela frente.

Qual o tipo de pico que você gosta de andar?
Eu gosto de andar em pico podre! É igual minha entrevista. Todos os lugares que eu andei, procurei andar em lugar que nunca ninguém tinha andado. Porque, por mais que o pico não seja tão grande, não seja uma coisa tão absurda, só que a dificuldade de você andar nele, já te satisfaz. É isso que eu foquei nessa entrevista. Não de simplesmente chegar nos picos conhecidos, todo mundo já fez um monte de manobras, e fazer uma linha. Procurei andar nos picos aqui em Cubatão, em Santos. Lugares perdidos.

Começamos a entrevista com você falando da era mainstream andando nos palcos dos shows do Charlie Brown Jr e agora você me diz que curte andar em picos podres. Qual a moral da história?
Skate é zica, moleque! Um dia você divide pão com mortadela e refrigerante barato. No outro, você viaja de primeira classe.

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